Páscoa: ritos de sangue e tradição

A Páscoa, como a maioria conhece, e por causa da globalização, caracteriza-se pelo tão estimado “ovo de chocolate”, e tem o coelho como um símbolo da divulgação da festa.

Contudo, a Páscoa é um importante momento da história da civilização judaica no mundo; e ela vai muito além disso, ela traz os imaginários milenares dos festivais da primavera com a cultura dos povos pré-cristãos na Europa; pois a primavera traz a renovação da vida identificada nos símbolos da fertilidade, entre tantos outros fatos que acontecem na natureza nesta época.

E é a partir da chegada do equinócio da primavera no Hemisfério Norte que se marca o primeiro domingo, após a primeira lua cheia, como o dia escolhido para a celebração da Páscoa.

A escolha da data da Páscoa está agregada às antigas tradições dos povos pré-judaicos e cristãos como uma interpretação dos elementos da natureza e da magia.

Essas antigas culturas recuperaram as memórias de diferentes civilizações que ritualizam a primavera enquanto um ciclo da natureza aonde há um forte sentido de renovação da vida. Essas celebrações cíclicas aconteciam nas mudanças das estações, e também mantinham os seus diferentes costumes sacrificiais.

No caso da primavera, há o oferecimento dos primeiros frutos das colheitas; das primeiras garrafas de vinho; do fabrico de pães que chegam das primeiras espigas douradas de trigo; entre tantas maneiras de estabelecer comunicação com o sagrado.

Há uma variedade de deuses, de mitos, e de tantos outros personagens que se integram ao imaginário da vida, da comida, da festa, da comensalidade, da procriação relacionados à natureza. E é a ideia de continuidade do mundo que se une a Páscoa nas tradições judaico-cristãs, numa busca de interação do homem com o Divino.

A base e a memória fundante das nossas tradições da Páscoa recorrem às bases judaicas. E nasce a partir do episódio da fuga do Egito, com a libertação do povo de Israel.

Essa fuga marca o momento culminante dos muitos episódios das ações de Deus para libertar seu povo. Porém, fez-se necessária uma preparação para a fuga, e os judeus deveriam marcar as entradas das suas casas com o sangue dos cordeiros que seriam sacrificados em louvor à Deus, para poderem salvar os seus primogênitos. Dessa forma, os judeus não seriam vítimas do castigo divino, como ocorreu para o restante da população.

Foto Jorge Sabino

Assim, o sentido simbólico e histórico da Páscoa se dá com o Êxodo dos judeus do Egito, fuga e a travessia do povo de Israel pelo Mar Vermelho. Páscoa é uma palavra hebraica derivada de – pesah – travessia, passagem; o que reafirma a importância do contexto da fuga dos escolhidos por Deus, os judeus.

E na antiguidade, para lembrar e celebrar a memória da libertação do povo de Israel, cada família judia sacrificava, anualmente, um cordeiro para agradecer e fortalecer a sua aliança com o divino.

No calendário judaico, a Páscoa é uma das festas que tem o maior significado para a unidade e a memória do povo de Israel. Os sacrifícios dos cordeiros se transformaram em refeições rituais que lembram, de diferentes formas, a história do Êxodo e da libertação dos judeus do Egito.

Nessa refeição ritual é relembrada, até hoje, a pressa da fuga do Egito, por isso o pão que é servido é o matzá – pão sem fermento –; também, não poderá ser servida nenhuma outra bebida ou comida fermentada na mesa da Páscoa.

Contudo, o sentido da celebração da Pascoa, para o mundo, se amplia com a formação do cristianismo. Coincidentemente, no período da Pascoa judaica ocorreu a crucificação de Jesus, um ato de sacrifício. Este sacrifício, remete-se mimeticamente ao sacrifício do cordeiro.

“No dia seguinte, viu João a Jesus, que disse: Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. (João, 1:29)

No imaginário coletivo dos povos judaico-cristão a Páscoa traz os sentimentos de liberdade, de vida, e de ressureição.

E, assim, todos esses temas fazem parte das celebrações da Páscoa. Tudo se une ao ideal de renovação e de renascimento presente em cada cultura e em cada tradição religiosa.

Raul Lody
Recife, 06 de abril de 2017

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