Comer no Xangô

O lugar patrimonial do “Sítio de Pai Adão” no Recife.

foto Jorge Sabino

foto Jorge Sabino

As comunidades de terreiro de matriz africana sempre se notabilizaram pelas muitas comidas, pois o sagrado, nestes territórios, é marcado com diferentes atos de alimentação.

Trago o caso da comunidade do “Sítio”, no Recife, o segundo terreiro a ser Tombado no Brasil e, a partir deste reconhecimento, buscou preservar as suas formas culturais e, entre elas, deu destaque as comidas rituais.

No bairro de Água Fria, Recife, numa área tombada pelo Patrimônio Cultural de Pernambuco em 1985, vive uma comunidade dedicada aos orixás e aos seus antepassados, especialmente os orixás Xangô e Iemanjá.  Chamado de Terreiro Obá Ogunté Seita Africana Obaomim, também conhecido como Sítio ou Sítio de Pai Adão.

O processo para o tombamento do Terreiro Obá Ogunté Seita Africana Obaomim recebeu o número 103, em 13 de janeiro de 1984, FUNDARPE, por solicitação de Raul Lody.

O processo para o tombamento de patrimônio cultural busca atingir manifestações culturais fora do sistema oficial de bens tombados que atestam a história e os fatos do poder estabelecido.

Esse foi o primeiro terreiro tombado, em âmbito estadual, por intermédio do Decreto 10.712, de 5 de setembro de 1985. E, assim, o Sítio em 2015 celebra seus 30 anos do seu tombamento.

O Terreiro é um local de encontros, e aonde são reativados os laços de parentesco de santo, laços de parentescos consanguíneos; e também onde são mantidos todos os elos necessários ao culto dos orixás: liturgias, festas, comidas, danças, música vocal, música instrumental, indumentária, vocabulários, posturas hierárquicas, sistemas de poder, processos de vaticínios, medicina, ludicidade.   Enfim, é o local onde a memória é aquecida através de rituais que podem ser diários ou que seguem os calendários das festas.

No Terreiro há um amplo e fascinante jogo simbólico dos sentidos e dos sentimentos entre os membros da comunidade e da sociedade.

Comida, sons, gestos e objetos, vivificam histórias, lendas, relações entre homens e deuses, e falam sobre a natureza e a África. Uma pequena África no Recife.

O terreno do Sítio possui aproximadamente cinco mil metros quadrados, e se localiza numa área conhecida como Chapéu de Sol, no largo dessa localidade está o Terreiro.

Segundo depoimentos, na área do terreiro havia plantações de cacau, oiti-coró, ingá, jaca, pitomba, manga e café. Os frutos serviam para o consumo da comunidade, e o excedente era consumido na própria localidade. Importante observar que os primeiros frutos eram oferecidos aos orixás, que, no seu amplo e diversificado cardápio, incorporavam frutos tropicais, como alimentos que detinham preceito e rigor ritual.

A tradição oral se reporta a Maria Joaquina da Costa – Ifátinoké – como a fundadora do Terreiro Obá Ogunté, seguindo os fundamentos religiosos Egbá.

Egbá é um grupo cultural que integra o sistema iorubano, juntamente com o Ketu e o Igexá, na Nigéria, África Ocidental.

Assim, Ifátinoké plantou o Axé, como dizem os adeptos dos xangôs. Foi a responsável pela organização ritual do Terreiro, que é dedicado à Iemanjá, mas tem no orixá Xangô um dos mais importantes motivos de culto e de unidade religiosa.

Os objetos dedicados a Xangô, como, pilões, gamelas, objetos feitos de madeira, são em maior número, e também estão no conjunto dos objetos da cozinha, pois há uma profunda relação dos objetos com os mitos, com os materiais, e com o artesanato tradicional, que assim traduz a cultura e integra símbolos do cotidiano ao sagrado.

Para o orixá Xangô, são também seus símbolos o oxê, o otá, o xére, que simbolizam o senhor das trovoadas e da justiça, o quarto rei de Oyó, o filho de Oraniã, fundador da dinastia dos Alafins de Oyó, Nigéria.

Comer o sagrado

São muitas as comidas que formam os cardápios dos orixás. São comidas especialmente preparadas pela iabassê, mulher iniciada, preparada para alimentar os deuses e a comunidade do terreiro.

Cada ingrediente, tempero, quantidade, técnica culinária, e estética do prato, tem um significado, e assume um valor na liturgia da alimentação. É tradição nos terreiros comer bem, e muito, pois a fartura das comidas é uma marca do sentido de que a natureza é capaz de prover e de nutrir os homens. Nutrir também os orixás com os seus pratos especiais.

Sem dúvida, há uma comunicação intensa entre as cozinhas dos terreiros e as cozinhas das casas; entre os cardápios do cotidiano e o cardápio das festas.

Nesses muitos e variados cardápios estão as comidas de dendê, o uso de temperos tradicionais africanos como o atá ou ataré que é a pimenta da costa; os frutos, obi e orobô; e as favas lelecum e bejerecum; o quiabo e o inhame, também africanos.

Produtos nativos, da terra, como o milho, a mandioca, o feijão; carnes de diferentes animais; e produtos do mar, especialmente o camarão; unem-se aos temperos para formar comidas saborosas, pois a maioria das comidas dos orixás são as mesmas partilhadas pelos homens.

Exemplo de comida ritual que pertence ao orixá Xangô é o begueri, prato feito à base de quiabo, camarões secos, azeite de dendê, carne de boi e muita pimenta.  Este prato é servido numa gamela redonda de madeira.

Gilberto Freyre se lembra de Adão, Pai Adão, conhecido no Xangô de Pernambuco como Opêatanan, e também Oxirê Obá, e com o cargo de Alapinim, e que teve os seus ensinamentos em Lagos, Nigéria, em 1906, terra dos Iorubá. Tornou-se lá o grande sacerdote e conhecedor das tradições e dos saberes que identificam os territórios do Xangô pernambucano, e que se espalharam pela sociedade afrodescendente.

“Adão: o grande babalorixá do Fundão, subárea do Recife (…) na qual viveu Adão, de volta da África, a vida inteira, sem mudar sequer de casa – nem de casa nem de profissão – ao contrário de borboleteantes ioiôs brancos que em tantas casas residiram na mesma época.  Conheci de perto o velho babalorixá de quem fui, repito, amigo íntimo. Mais de uma vez almocei à sua mesa de sacerdote que tinha a dignidade de um bispo. Quis escrever-lhe a biografia de perfeito afro-brasileiro. Sua morte impediu a realização, ou tentativa de realização, da biografia planejada; e para a qual cheguei a tomar notas como que taquigráficas de conversas. Seria ela trabalho de caráter menos histórico-social que psicossocial, embora igualmente sociológico nas suas pretensões. Seria menos histórico-social e mais antropológico-social por ter de basear-se principalmente em documentos pessoais orais, colhidos da boca do próprio biografado e de seus filhos, parentes, amigos, colaboradores, inimigos, rivais. (…)”. (Freyre, Gilberto. Pessoas, coisas & animais.  Editora O Globo, 1981:44-47).

O Sítio, até hoje, preserva e dá continuidade ao saber ancestral de Pai Adão, mantendo as festas, as liturgias, as músicas, as danças, as indumentárias; e as comidas, que são notáveis nas suas receitas, e nas realizações das iabassês que dão a cozinha o seu lugar de santuário, e de local de experiência profunda com o sagrado.

 

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