Junto & Misturado – A espetacularização da comida

Está tudo “Junto & Misturado”, e assim se pode e se deve ver a comida, e tudo o que ela representa enquanto alimento e símbolo para um povo.

Sim, antes de comer os nutrientes, come-se os símbolos. São rituais de autofagia das próprias referências sociais, certamente escolhidas e processadas pelas civilizações durante a construção dos paladares. Cada ingrediente, cor, textura, processo culinário, quantidade e estética do prato têm significados próprios, e passam a ser referências para legitimar lugares e sociedades.

Na comida tudo é plural, complexo, diverso e funcional. Nela sempre há importância histórica, econômica, política, religiosa, moral e cultural, porque além de alimentar a barriga também alimenta a identidade e o pertencimento. E isto é fundamental para a relação do homem com o que ele come, quando come, com quem come, e se come com os outros homens ou com os deuses. Estas são algumas das muitas questões, entre tantas, que fazem da comida e da comensalidade um momento ritualizado da alimentação.

Foto de Jorge Sabino

Foto de Jorge Sabino

Tudo isso se amplia com a crescente glamorização da comida, e da circulação rápida das informações, e tudo que é referente a este universo é fantástico e emocional, e nos faz ficar comovidos diante do alimento.  A economia quer, cada vez mais, neste mercado de abrangência mundial, padronizar as regras, as modas e as escolhas do que se come com a busca pelos restaurantes “estrelados”.

As multilinguagens e a web fazem ferver este campo aberto que é a comunicação pela comida. Isto é sensacional, pois mostra as arenas do grande circo midiático que vivemos no cotidiano com a espetacularização da gastronomia. Também há um crescente número de atores sociais que buscam notoriedade, fama, mercado de trabalho, e exposição midiática por meio da comida.

Hoje, com certeza, a glamorização da comida se afirma cada vez mais no universo da alimentação, e que vai muito além da boca; porque a comida traz antes de tudo um lugar privilegiado dentro das relações de poder e fama.  Nas hierarquias dos “chefes”, que em alguns casos são considerados quase divindades, certamente oferecem ao consumo suas assinaturas e suas exclusividades em espaços verdadeiramente mitológicos. Com certeza, destacam-se talentos e estilos.

O trabalho é intenso numa cozinha, são muitas atividades, estudos, pesquisas, compromissos sociais e culturais com os ingredientes, com as receitas, e com a própria comida. E assim, nesta multiplicidade, e nestes contextos tão complexos, a comida e um emblema e um grande tema dominante desse século.

O mercado da gastronomia é voraz, intenso; e, tem fome de fama, de sabores, de memórias, de lugares, de territórios, e de pessoas. Os indivíduos são expostos ao crescente valor simbólico e midiático de onde comer, comer a comida de quem, e comer que tipo de comida, para se distinguir dos outros.

As ondas fusion, confort food e fast food são maneiras contemporâneas de fazer e comercializar comida e, com certeza, a globalização impõe rótulos preferencialmente em inglês para informar ou glamorizar.

No caso do fast food, pode-se entender este processo de fazer comida, preferencialmente, na rua, sempre integrou o hábito do brasileiro, pois quem vende tacacá, acarajé, tapioca, pipoca, fazem as suas comidas rapidamente para que sejam consumidas pela população. E não podemos esquecer da conhecida Kombi do cachorro quente que foi repaginada na nova onda do food truck.

Nestes contextos, há também o monitoramento acadêmico dos que propagam regras e, sem dúvida, pessoalmente sou o primeiro a querer e buscar os fundamentos das pesquisas, dos trabalhos de campo, e tudo mais que possa valorizar, promover e mostrar este campo tão plural e sedutor que é o da comida. Eu acredito que a “comida de verdade” atesta a sua região e marca o seu terroir.

Assim, as arenas do circo gastronômico trazem espetáculos diários, e tudo está marcado pelos mercados, e especialmente pelos consumos e modismos.

 

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