Maduras, cheirosas e sagradas. As frutas de devoção

O verão e o início de dezembro, juntos, trazem o começo de um amplo ciclo de celebrações tradicionais que o povo do São Salvador, Bahia, conhece por Festas de Largo. Estas celebrações acontecem próximas às igrejas dos santos que são homenageados, e unem fé e festa, festa de comer, de viver a celebração da comensalidade. Também há samba e capoeira; procissões e missas solenes; devoções do povo de santo dos terreiros de candomblé que fazem da festa um momento sagrado.

É um rico calendário para celebrar: 04 de dezembro com Santa Bárbara; 08 de dezembro com a Conceição ou a Conceição da Praia; 13 de dezembro com Santa Luzia; 01 de janeiro com Bom Jesus do Navegantes, e depois a Lavagem do Bonfim; 02 de fevereiro Nossa Senhora das Candeias, com a festa de Iemanjá.

Todas essas festas são conhecidas não só pelas comidas, mas também pelas frutas da época: manga, abacaxi, laranja, melão, melancia, caju, mangaba; entre tantas que recuperam os bons hábitos de comer muita fruta, que seja doce e tenha muita água para equilibrar com o calor do verão.

Foto de Jorge Sabino

Foto de Jorge Sabino

As primeiras festas de rua, de Largo, trazem para o calendário tradicional da cidade as Santas, que no olhar e sentimento afro-baiano são também orixás – Iansã, Iemanjá e Oxum –; todas muito populares e presentes na vida e nos costumes das Bahia.  Os orixás estão integrados ao cotidiano e marcam as festas públicas para celebrar fertilidade; águas de mar e de rios; maternidade; e estes temas unem-se ao imaginário de fartura das comidas.

Assim, as Festas de Largo reúnem muitas baianas de tabuleiro com: acarajés, abarás, “passarinha”, cocadas; e, há as barracas especiais de comidas com: feijoada, caruru, vatapá; efó, xinxim de galinha; moquecas de peixe, de camarão, de carne, de bofe; maniçoba; entre tantas opções de se comer à baiana; e também as barracas para se beber à baiana.

Sem dúvida, os ingredientes têm muitas histórias e significados, e as frutas de verão são reconhecidas pela beleza, cor, perfume e sabor; além da sua boa quantidade de água. São frutas maduras que saciam a sede.

Frutas prontas para serem consumidas são oferecidas a um ser sagrado antes de serem comidas pelos homens. E assim a primeira raiz, a primeira folha, a primeira verdura, a primeira fruta, são oferecidas como um agradecimento pela colheita, ou como um oferecimento, além de representar um pedido de permissão para o seu consumo.

Dessa maneira, nas tradições afro-baianas, os orixás comerão primeiro as frutas que foram selecionadas por serem as mais bonitas, e por estarem maduras; com isso são certamente as mais deliciosas. As frutas são oferecidas, em pratos e travessas, nos altares dos orixás quando se agradece a colheita, e então é pedida a permissão para consumi-las livremente, na quantidade desejada.

Esses rituais imemoriais, onde se alimenta primeiro o sagrado e depois se alimenta o homem, ocorre em todos os povos, em todas as civilizações, que buscam uma comunhão entre a natureza e o sagrado.

As primeiras uvas, as mais tenras, eram oferecidas a Baco ou a Dionísio, para agradecer uma boa colheita, e também para proporcionar uma boa produção de vinho; porque o alimento abençoado é perfeito em qualidade, e terá o sabor desejado; e o seu consumo trará alegria.

Cada fruta, verdura, ou raiz, oferecida, tem um sentido sacrificial, de comunicação ritual, que é feita com gestos especiais, cânticos, posturas corporais, que darão identidade e entendimento de cada cerimônia. Nas tradições afro-baianas, as frutas de verão são oferecidas às Santas por terem beleza, doçura e quantidade de água que possuem, para que só depois de abençoadas sejam consumidas.  Certamente as frutas mais amarelas, bem maduras, quase douradas, são da predileção de Oxum, e isso revela o sentido da fertilidade, da maternidade e das águas doces.

Raul   Lody

 

(artigo originalmente produzido pelo Jornal A Tarde)

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